O RACIOCÍNIO QUEBRADO QUE CONSTRÓI
Parteum faz releitura do RAP e inova maneira de fazer música
Por: Ricardo Garcia
Para entendermos o trabalho multimídia de Fábio Luiz, conhecido como Parteum, basta analisar seu currículo musical: M.C., produtor, beatmaker e se necessário, instrumentista também. Com álbuns, singles e mixtapes sendo lançados quase que periodicamente, produções e remixes de artistas consagrados, como: Ed Motta, Fernanda Porto, Cláudio Zóli e outros, vai emanando sua sonoridade e seu raciocínio, que ele denomina 'quebrado', para todos. Seja ou não do Hip-Hop.
Seus dois úlitmos trabalhos agitaram o cenário Underground. Ousou, ao fazer um remix sampleando 'Cultura racional', hit do período em que o síndico Tim Maia lançou sua pérola 'Tim Maia Racional'. Lançou no último dia 2 sua mixtape 'Meditatio', onde experimenta ainda mais em seus timbres complexos e um tanto interessantes.
Com isso e mais, Parteum integra uma casta de novos músicos autodidatas, que mostram a nova faceta de um artista nos tempos modernos e cada vez mais digitais. Com os avanços tecnológicos, não é preciso sonhar demais para fazer um trabalho musical bom e 100% caseiro. E com seus ouvidos apurados, que apreciam desde Radiohead até Nas, inova o jogo do Hip-Hop, onde predominava o "Padrão Racionais" de fazer RAP, com letras diretas e nem sempre agradáveis. As rimas de Parteum fazem o abstrato ter sentido e o que tem sentido tornar-se surreal. Característica da nova escola do RAP brasileiro, que surgiu em meados de 2000, com novas abordagens e propostas de fazer música.
Assim, uma nova bandeira é levantada dentro do militante Hip-Hop do Brasil. Algo que traz um novo fôlego e uma nova visão, mostrando a riqueza e o futuro que uma cultura de rua possui, desde os tempos de seus criadores Afrika Bambaataa e Kool Herc. Então assim, sem nenhum tipo de discriminação, todos ouvem RAP sem culpa. E gostam.
Parteum (a direita, de boné), DJ Suissac (ao fundo) e Secreto (a esquerda) formam o grupo Mzuri Sana
Ricardo: Do garoto Fábio Luiz até o artista multimídia Parteum. Conte um pouco da sua trajetória.
Parteum: São 9 anos desde a primeira visita ao porão da casa dos pais do Spy ali na Penha, são 12 anos desde que pisei em L.A. pela primeira vez e gastei metade da grana da faculdade em 12 polegadas de vinil no segundo dia de viagem, 19 anos desde que fui buscar minha irmã numa aula de piano e passei a estudar com os livros dela escondido...os mesmos 19 anos desde que ganhei meu primeiro skate. De alguma forma tudo isso aparece na música, não teria outro jeito de dizer quem sou, senão dizendo por onde passei e o que fiz.
R: Qual é o panorama atual do RAP brasileiro na sua opinião? O que já foi atingido e o que falta conquistar?
Parteum: Tem tanta coisa a ser feita, tanta coisa a ser resolvida, porém temos liberdade, direção. Falta tino comercial e percepção na minha opinião. É preciso entender que para que sejamos reais 24/365 as contas devem estar pagas, as músicas devidamente registradas, os discos devem estar nas gôndolas dos hipermercados, e é lógico devemos fazer com que todo mundo entenda que a conta das gravadoras costuma ser 60% do investimento num disco para marketing/divulgação/PDV e 40% para produção real do álbum. Quanto mais você promover seu trampo e baratear o custo da operação, mais você poderá contar com fundos para gastos extras da gravação, como uma segunda mixagem de uma faixa específica , ou uma masterização fora do país. São em momentos como esse que percebemos quem são os homens de negócio, os artistas e os que podem fazer as duas coisas simultaneamente.
R: Mzuri Sana, Rima Rhara, trabalhos solo, mixtapes, produções, remixes, trilhas sonoras, DVD... Você está sempre municiando os ouvidos dos seus fãs. Acha que essa frequência em lançar os trabalhos musicais é uma tendência ou uma necessidade nos tempos modernos?
Parteum: Eu só pretendo fazer isso por mais algum tempo, pouco tempo na verdade. Uma vez que a idéia principal dos meus trabalhos estiver difundida a frequência vai diminuir naturalmente. O que fiz até agora me ajudou muito. Posso passar 3 meses do ano fazendo trilhas para um seriado por exemplo, e usar parte do que recebo em novos equipamentos e mais horas num estúdio da cidade. Eu detesto a idéia de que hoje em dia qualquer um grava um disco em casa e isso é suficiente para que uma carreira "real" seja concebida. Esse é o primeiro passo na real. Se de alguma forma os artistas, de qualquer estilo musical, tem algum poder sobre a arte (e a divulgação), isso só ocorre pela razão mais óbvia: O fim da indústria dos grandes investimentos, dos artistas contratados que só recuperam o investimento da gravadora no segundo, terceiro disco. Tudo é bem mais imediato agora, e até por absorver as informações do mundo nessa velocidade, acredito que é justo jogar de volta para o universo parte da loucura que me acompanha diariamente.
R: O que vai ditar o futuro da música RAP? A criatividade do artista ou as tecnologias e recursos cada vez mais versáteis e acessíveis ao alcance?
Parteum: Acho que um pouco dos dois. A tecnologia ajuda muito, dá poder e cria parâmetros para qualquer garoto de periferia munido de um computador, um programa sequenciador e alguns timbres. Falo do mesmo garoto que um dia desses vai sair de casa e num estúdio maior descobrirá quanto ele não sabe sobre o universo em que se envolveu, e mesmo assim quanto suas idéias fazem diferença nesse mundo. Isso é maior que a música. Concordo com Nas quando ele diz que o Hip-Hop morreu, pois a grande maioria dos garotos e garotas que se envolvem com a cultura lá fora querem as correntes e os carros, o estilo de vida do Jay-Z, por exemplo. Já por aqui, eles querem um lugar ao sol e alguém para ouví-los antes que seja tarde demais. O Hip-Hop que conheci ouvindo Double Trouble, Toddy Tee, D.O.C., Just Ice, Boogie Down Productions, Rakim e Public Enemy com meu irmão não existe mais, percebemos um ou outro traço dele aqui e ali, mas é só. É cedo para que eu diga se é melhor ou pior, mas com certeza é um outro monstro.